Em meio ao forró e à alegria que tomam conta do Camaforró 2026, existe um trabalho que muitas vezes passa despercebido pelo público, mas que é fundamental para garantir que a festa seja um espaço seguro, acolhedor e acessível para todas as pessoas. Pela primeira vez em Camaçari, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos levou ao evento uma ação integrada reunindo diferentes órgãos para atendimento, orientação e proteção da população.
Entre as profissionais envolvidas está Maíles Santana, que encontrou no São João uma oportunidade de aproximar as políticas públicas das pessoas.
“É a nossa primeira vez aqui em Camaçari e estou amando essa experiência.”
A iniciativa reúne serviços voltados à proteção de crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e demais grupos que frequentemente enfrentam situações de vulnerabilidade ou violação de direitos.
Para Maíles, a presença dessas ações em uma festa popular fortalece o acesso da população às políticas públicas e amplia o alcance dos serviços oferecidos pelo Estado.
“Estamos trazendo para perto das pessoas políticas públicas que já existem, mas agora de forma mais integrada.”
Ao observar a dinâmica do Camaforró, ela destaca a participação feminina como um dos elementos mais marcantes da festa. Segundo ela, as mulheres estão ocupando espaços, fortalecendo suas vozes e reafirmando diariamente o direito de existir e ser respeitadas em todos os ambientes.
“Estou ouvindo várias mulheres incríveis. Mulheres que sabem que merecem respeito e que podem estar onde quiserem.”

A presença feminina no Comitê Integrado de Direitos Humanos também é destacada por Josemara Garcia, integrante do Coletivo Zacimba Gaba, organização que atua na defesa dos direitos das mulheres negras. Para ela, ocupar espaços de acolhimento e proteção durante grandes eventos populares vai muito além de uma ação institucional.
“Pra gente do Zacimba Gaba, ocupar o Comitê Integrado de Direitos Humanos no Camaforró não é opção, é estratégia de sobrevivência. Onde o Estado historicamente falha, a gente aquilomba. Estar no plantão significa garantir que mulheres negras e em situação de vulnerabilidade tenham escuta, acolhimento e orientação na hora que a violência acontece.”
Segundo Josemara, é fundamental que os serviços de proteção estejam presentes também nos espaços de lazer e celebração, já que situações de violência, racismo e assédio não deixam de acontecer durante os festejos.
“O racismo, o assédio e a violência contra a mulher não tiram folga no São João. Nossa presença é para dizer que direito não se negocia, se garante. E se garante com corpo político na rua.”
Ela também chama atenção para os desafios enfrentados por mulheres negras nos espaços públicos e para a necessidade de que a cultura popular seja vivida com respeito e dignidade.
“Tem gente que acha que forró é só festa. Para nós, mulheres negras, o forró também é território. E todo território é político.”
Para Josemara, combater o racismo, a misoginia e a violência durante os festejos é uma forma de garantir que todas as pessoas possam participar da celebração em igualdade de condições.
“Não existe alegria plena com medo. Não existe cultura se ela violenta quem faz a cultura acontecer. Mulher negra quer dançar, quer trabalhar, quer se divertir sem ser violada.”
A atuação conjunta entre poder público e organizações da sociedade civil fortalece a rede de proteção presente no Camaforró e amplia o alcance das ações voltadas à promoção dos direitos humanos.
As duas entrevistadas acreditam que iniciativas como essa ajudam a construir uma cultura de respeito, cidadania e pertencimento, mostrando que tradição e direitos devem caminhar lado a lado.
Em uma festa que celebra as raízes nordestinas, suas atuações lembram que preservar a cultura também significa cuidar das pessoas. E que um São João verdadeiramente popular é aquele onde todas e todos podem celebrar com dignidade, segurança e respeito.
Por Janine Brandão | Manifesta Feminina



