São muitos os problemas que afastam as brasileiras de participar da política institucional (e a “falta de vontade” não é um deles).
Entre as chapas consideradas competitivas que concorrem à Presidência nas eleições de 2026, não há sequer uma mulher: é o pior cenário em termos de participação feminina desde o pleito de 1998, apontou um levantamento do jornal Folha de S.Paulo. Analistas consideram que as mulheres terão papel decisivo na votação deste ano, mas elas são historicamente excluídas das decisões tomadas pelo governo brasileiro. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições realizadas entre 2018 e 2024, mulheres compuseram 53% do eleitorado, mas 34% das candidaturas e apenas 17% dos representantes eleitos. Isso coloca o Brasil na última posição entre os países da América Latina em um ranking da representação feminina na política criado pelo think tank Esfera Brasil — e na 134ª colocação de um total de 183 países avaliados.
Não é uma questão meramente “identitária”: nossa democracia é incompleta se grupos minoritários da população — no caso das mulheres, uma maioria “minorizada” — são barrados das posições de poder e impedidos de colocar seus interesses na agenda pública. Daí vem a importância de medidas afirmativas para diversificar a composição do nosso governo, como argumentam os cientistas políticos Luiz Augusto Campos e Julia Hirschle Teixeira em artigo publicado no portal Nexo Políticas Públicas. Tais medidas encontram resistência de partidos tanto da direita quanto da esquerda, que muitas vezes tentam justificar a disparidade de gênero na política com a ideia de um suposto desinteresse das mulheres: “[a política] não é muito da mulher”, resumiu o então presidente do PSL (atual União Brasil) Luciano Bivar, em 2019.
Essa ideia é falsa, porque, primeiro, ignora a expressiva atuação feminina em outras frentes: “As mulheres participam há muito tempo dos movimentos sociais, sindicais, estudantis, religiosos”, afirma Juliana Marques, doutoranda em ciência política pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora do recém-lançado DARA, núcleo de estudos e análise de dados sobre racismo. Além disso, as mulheres já estão dentro dos partidos: elas representam 46% dos eleitores filiados a siglas partidárias, proporção ainda inferior àquela observada no eleitorado em geral (53%), mas que não deixa dúvida do interesse das brasileiras pela política.
São muitos os problemas que afastam as brasileiras de participar da política institucional (e a “falta de vontade” não é um deles). O que falta é “vontade de muitos dirigentes [partidários] de colocar essas mulheres à frente das disputas eleitorais”, diz Marques em entrevista a Gama. Um levantamento recente do UOL mostrou que 79% dos presidentes de órgãos partidários no Brasil são homens. Na maioria das legendas, a porcentagem de mulheres em cargos de presidência não ultrapassa os 30%.
Gama consultou estudos, dados e especialistas para mapear alguns dos principais desafios ainda enfrentados por mulheres que desejam se candidatar a cargos públicos no Brasil — e as propostas que visam mudar essa realidade.
Tem partido que fala: ‘Ai, que saco, que homem nós vamos tirar [da lista de candidatos] para botar uma mulher?’ Eu já presenciei isso
O desejo de se candidatar
Quais são os fatores que pesam sobre a decisão de uma mulher que pensa em lançar uma candidatura no Brasil? Para responder a essa pergunta, vale conhecer melhor o perfil dessa mulher. Ela já ultrapassou um primeiro (grande) obstáculo: desenvolveu letramento político, se tornou uma liderança e se filiou a um partido, considera Luciana Panke, professora titular da Universidade Federal do Paraná e autora de livros sobre campanhas de mulheres.
No Brasil, a maioria das candidaturas femininas hoje são de mulheres negras. Isso é importante de observar, porque pessoas negras são maioria na população brasileira (55%, segundo o Censo de 2022), mas também são subrepresentadas em cargos do governo. Nas eleições de 2022, mulheres negras representaram 17,9% do total de candidaturas no Brasil (incluindo as de homens), mas apenas 6,6% das eleitas, de acordo com dados do portal TSE Mulheres. Em contraste, mulheres brancas, que estiveram em número menor entre as candidaturas (15,3%), foram 11,2% das eleitas.
Um estudo da pesquisadora Júlia Teixeira Hirschle, doutoranda na Uerj, conduziu entrevistas com oito candidatas negras que concorreram nas eleições de 2020 sobre suas trajetórias políticas. Todas relataram ter enfrentado “condições de trabalho precárias, grandes obstáculos e episódios de hostilidade durante a campanha”. Alguns temas surgiram com frequência nos diferentes relatos:
Alto engajamento das candidatas com movimentos sociais e associações da sociedade civil;
Níveis baixos de profissionalização das campanhas, que não dispunham de funcionários remunerados e dependiam da ajuda de voluntários e redes de apoio das candidatas (famílias, amigos, grupos ativistas);
Uma preferência por estratégias coletivas de governança, como os mandatos compartilhados.
A preferência por candidaturas coletivas pode ser entendida em parte como uma busca por apoio na divisão de tarefas — um apoio que muitas mulheres não recebem nem dos próprios partidos e tampouco encontram em suas vidas pessoais. No Brasil, as mulheres são desproporcionalmente responsabilizadas pelo cuidado com o lar e a família: as candidatas relataram dificuldade em equilibrar as atribuições da campanha com obrigações da maternidade e tarefas domésticas.
Outra preocupação que ronda a decisão de se candidatar vem do desafio de abrir caminhos para mulheres em espaços onde elas ainda são minoria. Nesse sentido, o exemplo de outras mulheres na política pode servir de inspiração, mas também é fonte de medo, tendo em vista os ataques misóginos que todas sofrem nesse meio. Há dois casos emblemáticos na história recente: as ofensas machistas direcionadas à ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), que se intensificaram durante o processo do seu impeachment; e o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol/RJ) pela milícia do Rio de Janeiro, em 2018. Ambos foram pontos de virada para o reconhecimento da violência política de gênero no Brasil como um problema que ameaça a vida de mulheres e demanda ações preventivas.
Isso reforça dois pontos que sempre aparecem em discussões sobre a subrepresentação feminina na política: a importância da representatividade para inspirar novas trajetórias e mostrar que esse espaço também é das mulheres; e o efeito causado pelos ataques discriminatórios, que, mesmo quando são direcionados a uma só mulher, acabam por intimidar todas as demais.
Disputas internas
Os obstáculos e ataques enfrentados por mulheres na política quase sempre começam dentro do seu próprio partido: “É um aspecto muitas vezes ignorado”, comenta Tainah Pereira, doutoranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora política do movimento Mulheres Negras Decidem. “Entende-se que só opositores fariam ataques a essas mulheres, o que não é verdade”.
A discriminação pode tomar muitas formas, desde a falta de reconhecimento do trabalho feito por essas mulheres a tentativas de descredibilizá-las, chegando à violência explícita de casos de assédio e abuso sexual cometidos por colegas de sigla. Elas acabam invisibilizadas. “A mulher está no partido, mas não está na diretoria”, avalia Luciana Panke. “Ela está fazendo articulação, falando nas comunidades, preparando o café da reunião. Quando muito, jogam ela para a Secretaria da Mulher”. As secretarias da Mulher têm crescido dentro dos partidos nas últimas eleições, mas, embora sejam espaços importantes de articulação política, esses órgãos costumam estar distantes da tomada de decisões. Em 2022, essas secretarias integravam as Comissões Executivas Nacionais de apenas oito de 32 partidos, segundo um estudo de pesquisadores da Uerj.
Um aspecto crucial desse problema aparece na distribuição de recursos de campanha. No Brasil, pesquisas mostram que “a correlação entre dinheiro e votos é quase perfeita”, escrevem Luiz Augusto Campos e Julia Hirschle Teixeira. “Isto é, quem tem maior acesso a recursos financeiros tem mais chances de se eleger”. É um entendimento que tem norteado a luta por medidas afirmativas para ampliar a participação feminina.
Desde 2009, a Lei nº 12.034 determina uma reserva de no mínimo de 30% das candidaturas ao Legislativo para mulheres, mas uma candidatura não garante assento no Congresso, em especial sem receber investimento. Por isso, a Emenda Constitucional nº 117 passou a exigir também que as siglas repassem, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundo Eleitoral) a candidaturas de mulheres. Ainda há muita resistência a essas regras, que nem sempre são cumpridas. “Tem partido que fala: ‘Ai, que saco, que homem nós vamos tirar [da lista de candidatos] para botar uma mulher?’ Eu já presenciei isso”, relata Panke.
Uma série de tentativas de fraude às cotas para mulheres, negros e indígenas já foram registradas ao longo dos anos. Uma estratégia comum envolve a divulgação de candidaturas laranjas: pessoas listadas como candidatas apenas para cumprir com a exigência, mas que não estão de fato concorrendo e sequer fazem campanha. Situações desse tipo já resultaram na cassação de vereadores pelo TSE em Goiás e no Piauí, mas casos semelhantes passaram impunes, com a concessão de anistia aos partidos envolvidos no Supremo Tribunal Federal. “Fica fácil descumprir a regra já esperando a anistia”, diz Juliana Marques, pesquisadora do DARA. Em junho, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, anunciou a modernização de sistemas de registro de candidaturas e prestação de contas com o intuito de aprimorar a fiscalização dessas irregularidades.
Especialistas entrevistadas pela revista Gama avaliam que as cotas atuais para mulheres representam conquistas importantes, mas a legislação ainda pode ir mais longe. Uma estimativa emitida em 2024 pelo Instituto Alziras calculou que, no ritmo em que os indicadores avançam, o Brasil ainda pode levar cerca de 140 anos para alcançar a paridade de gênero no poder executivo municipal. Uma ideia simples para acelerar esse processo é a reserva de assentos no governo para mulheres. Medidas do tipo já foram adotadas por outros países latino-americanos, como México e Bolívia.
“O melhor caminho é a busca pela paridade”, diz Tainah Pereira, do movimento Mulheres Negras Decidem — uma das 30 organizações que, em 12 de agosto, lançaram uma plataforma digital para a coleta de assinaturas em favor de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que propõe a reserva de 50% dos assentos do Legislativo para mulheres. Metade dos 50%, ou 25% do total de vagas, seria reservada a mulheres negras. A proposta precisa de 1,7 milhão de assinaturas para ser encaminhada ao Congresso.
Violência política de gênero
O risco de violência é uma realidade na política brasileira, que afeta políticos de todos os gêneros. No entanto, diferentemente dos homens, mulheres enfrentam ataques discriminatórios que visam desincentivar sua atuação política como grupo. Em 2021, a Lei 14.192/2021 estabeleceu normas para o combate da violência política contra mulheres, mas ainda são poucos os casos que se convertem em denúncias e são punidos. Um levantamento de 2025 do Instituto Alziras mostrou que, entre 245 situações monitoradas pelo Grupo de Trabalho de Prevenção e Combate à Violência Política de Gênero do Ministério Público Federal, apenas 11% resultaram na abertura de ação penal eleitoral.
Pereira relata a Gama que uma candidata apoiada pelo movimento Mulheres Negras Decidem em duas eleições “sofreu diversos tipos de violências: ameaças, assédio sexual, perseguição, violência financeira”. Esse último tipo de violência decorreu de um atraso no repasse dos recursos de campanha — outra estratégia empregada pelos partidos para prejudicar as chances de suas próprias candidatas. Quando são eleitas, os ataques tendem a se intensificar. Um relatório do Instituto Marielle Franco analisou 77 casos de violência política de gênero e raça no meio digital registrados entre 2021 e 2025: parlamentares em exercício representavam 71% das vítimas. “Existe uma ideia equivocada de que, uma vez eleitas, essas mulheres estão mais protegidas”, diz Pereira.
Grande parte dos ataques hoje se concentra no ambiente digital, por meio da internet e das mídias sociais. O Instituto Marielle Franco categorizou sete tipos diferentes de violência política que acontecem nesse espaço: ameaças e intimidações, desinformação e fake news, discurso de ódio, violência simbólica ou discursiva, exposição de dados, assédio digital e invasão de redes. Uma análise do site Gênero e Número considera que propostas de lei barradas pelo Congresso, como a PL das Fake News, ajudariam a criar os mecanismos necessários para combater alguns desses tipos de violência, responsabilizando também as empresas de tecnologia que administram as plataformas digitais.
“Precisamos de uma lei mais ampla, que aponte as responsabilidades dessas empresas, senão ficamos no caso a caso”, considera Pereira. Nas eleições de 2026, sete grandes plataformas firmaram acordos com o TSE com propostas para combater a desinformação, mas esse documento não tem a força legal de um contrato e não poderá ser usado para punir as empresas em caso de descumprimento, como mostrou uma análise do site Núcleo.
Fonte: Gama Revista



