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A sobrecarga invisível também adoece: por que tantas mulheres estão emocionalmente exaustas?

Entre trabalho, maternidade, casa e uma lista de responsabilidades que parece nunca terminar, seguem tentando dar conta de tudo  mesmo quando já chegaram ao limite

Por fora, a rotina continua. O trabalho é entregue, as decisões são tomadas, as necessidades dos filhos são atendidas, a casa funciona e os compromissos se sucedem. Por dentro, no entanto, pode existir uma mulher tentando equilibrar responsabilidades demais e convivendo diariamente com a sensação de que, ainda assim, não fez o suficiente.

Thaizi Santana

Thaizi Santana, 40 anos, servidora pública e mãe solo, conhece bem essa sensação. Quando questionada sobre como concilia maternidade, trabalho e as demais responsabilidades da vida, ela começa contestando a própria ideia de conciliação.

“Não há conciliação real. Pelo menos ao meu olhar. Acho que sempre estaremos equilibrando os pratinhos entre a vida profissional e a maternidade. Cada dia deixamos algo a desejar, seja na maternidade ou no profissional.”

Mesmo quando consegue manter esses “pratinhos” no ar, permanece a sensação de insuficiência.

“A gente tenta, faz o que pode e muitas vezes o que não pode para dar conta e, mesmo assim, no fim do dia, a sensação é de que nada fizemos”, relata.

O trabalho que ninguém vê

Parte dessa exaustão está relacionada a um trabalho que dificilmente aparece em uma lista de tarefas cumpridas.

Psicóloga Roseane Trindade

A psicóloga clínica com ênfase no desenvolvimento feminino e especialista em terapia cognitivo comportamental, Roseane Trindade ( CRP 03/14175) explica que a sobrecarga feminina envolve o acúmulo de diferentes jornadas, inclusive trabalhos não reconhecidos, como “planejar, antecipar e gerenciar tarefas”.

Segundo a profissional, não é por acaso que esse trabalho continua incidindo principalmente sobre as mulheres.

“Por uma construção histórica e cultural, recai ainda sobre a mulher o papel de cuidadora, da gestão do lar”, explica.

A experiência da empresária Edy Santos torna essa “carga invisível” bastante concreta.

Casada, mãe de três filhos e à frente da Pijamando, uma empresa de festas e eventos, Edy Mota reconhece o marido como um super companheiro. Isso, porém, não significa que a responsabilidade das necessidades da família seja igualmente compartilhada. “Embora ele seja um marido e um pai muito presente, toda a responsabilidade mental de antecipar as necessidades da família cai sobre mim”, conta.

São preocupações aparentemente pequenas, mas permanentes: perceber se o tênis de um filho ainda serve, verificar a farda, acompanhar o que estão lendo, observar amizades e comportamentos, identificar quando chegou o momento de conversar sobre puberdade.

Além de executar tarefas, existe alguém responsável por lembrar que elas existem.A diferença é fundamental: dividir a execução de algumas tarefas não significa, necessariamente, dividir a responsabilidade de pensar sobre elas. 

Dar conta de tudo não significa estar bem

Edy Mota

A carga mental não fica restrita à casa. Como empresária de um segmento que trabalha diretamente com criação e expectativas, Edy  também sente no trabalho o peso de ocupar o lugar de quem precisa pensar, antecipar e encontrar soluções.

Ela conta que, por ser vista como a “cabeça criativa” da empresa, muitas vezes espera-se que as ideias partam dela, mesmo quando existem outras pessoas envolvidas no processo.

Casa, filhos, empresa, equipe, clientes. As responsabilidades se acumulam, mas a rotina continua exigindo entregas.

Recentemente, a empresária percebeu que estava conseguindo fazer tudo o que precisava enquanto, emocionalmente, desejava apenas parar.

“Eu estava dando conta de tudo o que precisava dar, entregando tudo o que precisava entregar, mas a vontade era parar, chorar e dizer: ‘Poxa, eu só queria dois dias para não fazer nada, desligar meu celular e respirar’.”

Thaizi descreve outra face dessa mesma experiência:

“Performamos muito bem. Roupas bonitas, rostos maquiados, ombros erguidos, mas por dentro, estamos um caco.”

É justamente essa capacidade de continuar  “dando conta de tudo” que pode dificultar o reconhecimento da exaustão.

A psicóloga explica que muitas mulheres cresceram em famílias nas quais viram outras mulheres assumindo praticamente todas as responsabilidades. A repetição desse padrão, somada à cultura da superprodutividade, pode fazer com que a exaustão seja naturalizada e que admitir não estar dando conta seja encarado como fracasso. 

“Essa ideia de dar conta de tudo gera uma autocobrança e dificuldade para estabelecer limites, contribuindo muito para o adoecimento”,diz a profissional. Dificuldade para dormir ou manter o sono, problemas de concentração, procrastinação, irritabilidade, alterações de humor e dores de cabeça frequentes, alterações no ciclo menstrual e queda de cabelo estão entre os sinais de alerta apontados pela psicóloga. “A mulher pode continuar trabalhando, cuidando e resolvendo problemas, mas isso não significa que seu corpo e sua mente estejam atravessando essa rotina sem consequências”, aponta.

A obrigação de ser forte

Para as mulheres negras, a sobrecarga ganha ainda outra dimensão. Além das múltiplas jornadas, existe uma expectativa histórica de que sejam fortes o tempo todo, capazes de enfrentar dificuldades sem demonstrar cansaço ou vulnerabilidade.

“A mulher negra carrega esse estereótipo que exige que suporte tudo sem reclamar, que silencie suas dores”, afirma Roseane. Segundo ela, essa cobrança pode levar muitas mulheres a se anularem em função dos filhos, companheiros e familiares, colocando a própria saúde em último lugar e dificultando, inclusive, a busca por ajuda.

Na experiência de Thaizi, essa cobrança se cruza com a maternidade solo e com o medo de falhar. “Quando uma mulher negra e mãe solo pode errar? Quanto de mim eu preciso diariamente provar para que as minhas decisões sejam validadas?”, questiona..

Quem cuida de quem cuida?

Quando perguntada sobre quem cuida dela enquanto ela cuida de tantas coisas, Thaizi reconhece a solidão que acompanha sua experiência.

“Não há quem cuide de uma mãe, mulher e sozinha. Mesmo quando era casada, dentro da vivência do relacionamento eu já me sentia sozinha e sem cuidado. Porque o cuidado que disponibilizamos é muito aquém do que recebemos. E talvez por isso, na minha visão, essa conta nunca fecha.”

A experiência de Edy parte de uma configuração familiar diferente, mas encontra a de Thaizi justamente na concentração da responsabilidade mental.

Quando uma mulher precisa pedir, lembrar, orientar e conferir, mesmo que outra pessoa execute a tarefa, parte da responsabilidade continua concentrada nela.

Se priorizar também exige estabelecer limites

Edy começou a construir estratégias para diminuir esse peso. Faz terapia e meditação, voltou a dançar, participa de encontros de mulheres e terceirizou parte do trabalho doméstico.

Mas cuidar da própria saúde mental também tem significado estabelecer limites para as demandas que chegam até ela.

Nem todo pedido precisa ser atendido. Estar em casa não significa estar disponível. E trabalhar por conta própria não significa ter tempo para resolver as necessidades de todos.

A psicóloga considera esse movimento fundamental. “Um passo essencial é estabelecer limites, direcionar e dividir tarefas, construir uma rede de apoio, nomear o que está sentindo e não negligenciar os momentos de autocuidado.”

O desafio é não transformar o próprio autocuidado em mais uma responsabilidade exclusivamente feminina.

Não basta dizer a uma mulher sobrecarregada que ela precisa fazer terapia, descansar, meditar ou encontrar tempo para si se as estruturas que produzem sua exaustão permanecem intactas.

É preciso falar também sobre divisão de responsabilidades, redes de apoio, condições de trabalho e relações familiares nas quais o cuidado não seja entendido como obrigação natural das mulheres.

Quebre o ciclo

Romper com a sobrecarga feminina exige questionar uma lógica social que, durante gerações, transformou a mulher que tudo faz, tudo resolve e tudo suporta em símbolo de força.

A imagem da “guerreira” pode parecer um elogio. Mas também pode esconder relações desiguais, naturalizar a ausência de divisão do cuidado e transformar exaustão em virtude.

Sair desse lugar passa por reconhecer os próprios limites e exercer a autonomia de estabelecê-los. Dizer não. Dialogar sobre a divisão das responsabilidades. Deixar que outras pessoas assumam tarefas por inteiro ( inclusive a responsabilidade de lembrar e planejar). Pedir ajuda quando necessário. Construir redes. E compreender que se colocar entre as próprias prioridades não deveria ser motivo de culpa.

Isso não significa ignorar que nem todas as mulheres possuem as mesmas condições materiais, familiares ou sociais para fazer essas escolhas. Por isso, enfrentar a sobrecarga não pode ser tratado apenas como uma questão de decisão individual. É também uma discussão sobre como famílias, relações de trabalho e a própria sociedade distribuem o cuidado.

Questionar essa expectativa é também questionar o status quo que ensinou mulheres a medir sua força pela capacidade de se sacrificar. É preciso quebrar o ciclo. Priorizar-se, estabelecer limites e dividir responsabilidades não significa deixar de cuidar dos outros. Significa recusar a ideia de que cuidar de todos precisa acontecer às custas de si mesma.

Foto de Manifesta Feminina

Manifesta Feminina

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